Ano Velho
(...)
- Não ergo uma bandeira pró-fidelidade. Mas o fato é que tem momentos em que não há desejo pela transgressão, entende? Um pouco por medo, outro pouco por peso de consciência, é verdade... mas é certo que é uma sensação de completo alento. Não fazer o mínimo esforço para estar com outro alguém, pra não dizer simplesmente não querer estar com outro alguém... sei lá, é uma tranquilidade estranha...
- Hehe... é, cara... já pensei assim também. Um dia já cometi esse erro. Mas, cara, elas não merecem isso. Prefiro fazer antes de levar um bom par de chifres. Essas 'mulher' são tudo vagabunda.
- É... sei não. Qual a moral? Entrar em um relacionamento com um pé atrás e uma mão na bunda de outra vadia qualquer? Sabe?
...até esse ponto, ao olhar desatento, não se via muito além de um diálogo maniqueísta - o bem contra o mal, o correto contra o errado. Mas não, era algo mais... de um lado, era um alguém ainda esperançoso quanto a um namoro em crise; d'outro, apenas um ranço, vingativo e surrado.
- A moral é essa. Nessa vida, o que importa é dinheiro, um carro massa, bastante mulher, e uma cervejinha gelada... 'tá comigo?
- ... - uma inquietude consternada da idéia oposta, um silêncio breve, e por fim, um consentimento sutil no manejo afirmativo da cabeça. Conformou-se... aquela discussão, fosse como fosse, não levaria a nada.
E aí entro eu, vosso humilde narrador e comentarista desse certame, para uma breve reflexão acerca das idéias em conflito.
O lado pessimista - vê e vive um toma lá, dá cá, bezuntado em orgulho próprio e birra. Em algum momento, pode ter sido um otimista, mas perdeu o caminho nas primeiras oportunidades oferecidas. Hoje, é ele, é só, não depende - uma linha reta, objetiva e concreta, sem qualquer maleabilidade. E a idéia oposta... seria de um otimismo puro? Nota-se que a sua tendência em valorizar o próximo (no caso, a próxima) é admirável. Contudo, não se sabe os motivos que o levam a isso - tampouco o interlocutor faz questão de esclarecer. Ele não chega a firmar posição, e permanece em cima do muro. Sequer chegou a lutar pelos seus valores. Desistiu fácil de defender o que acredita, por ver como certa a incompreensão do outro. Julgou-se superior, dono de uma verdade que mal formulara por lógica, mas sim por um orgulho ético que, não seria de todo absurdo dizer, era tão burro quanto a pior ignorância.
...e seguia o confronto. Posso adiantar que agora não mais se tratava de uma mera concretização maniqueísta verbal, agora era algo mais... um conflito entre egos, um choque frontal entre orgulhos feridos.
(...)
- Eu poderia dizer, aliás, eu digo que uma pedra é tão viva quanto uma pessoa.
- Quê!? Que absurdo!
- Por quê? Que concepção tão errada é essa que define a vida?
- Cara, tu 'fumô' alguma coisa? Quando que uma pedra vai ser viva? Ela caminha por acaso?
- Desde quando vida é vida só quando caminha? ...entende? Por que essa categorização entre vivo/não vivo? A verdade é que tudo não passa de organização. Organização atômica, organização molecular, organização celular, ... sabe? O fato é esse... somos um conjunto de coisas, como qualquer pedra. Somos um conjunto de coisas que mal se dá conta do que é o todo que formamos.
- Ah... cala a boca.
- Eu tô certo.
- 'Tá errado. 'Tá louco e 'tá errado.
(...)
Nesse ponto o confronto franco e agressivo entre as idéias, e principalmente, entre os egos, se vê evidente. Não há interesse outro senão o de se sair vitorioso, inabalável, superior. Talvez pela grande inércia dessa vida, em não querer que, a partir daquele ponto, a vida de um ou de outro se quebre, tomando novos rumos e concepções.
Era, finalmente, o ponto de inflexão reflexiva de mais um ciclo de vida. O ideal otimista chegava ao fim daquele ano em um paradoxo nada novo.
Era uma situação ruim, mesmo recém passado o melhor ano de sua vida.
