domingo, 6 de setembro de 2009

Partida

Eu sinto em você o que se sente em mim
Quando em minhas mãos tenho tanto a partir.
Nos partindo em dois, nós partimos a sós,
Nossa parte de nós que se esvai no ar.

Eu penso em querer mais tempo a sós.
Desfaz esses nós, e me deixa um vão,
Que meu rebento à sorte vai me encontrar,
Me guiando o norte, até eu me achar.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Tirando a poeira...

Extraindo o futuro de um passado distante,
Abstraio da introspecção o que há de irreal,
Distraio a atenção, me torno infinito no ar.
Sou a terra sem fim, a luz, o véu,
não mais que o manto do céu de mim.

A impressão que dá é que as coisas ficam mais claras aqui. A amplitude no horizonte se torna subjetivamente literal. Desigual, o corpo acata a pequeneza, e a mente se liberta. O que importa passa ser a importância, não os valores importados que carregamos sem valia qualquer... aqui não há a desnatureza conflitante que incessante nos cega entre prédios e carros, barulho e silêncio mudo, silenciando o grito no desassossêgo da inconstância de uma vida urbana desigual. Aqui o silêncio é a paz do encontro consigo mesmo... e só.

Que paz é essa, que no homem não apraz como o desassossêgo o faz?

...que depois do inusitado encontro, voltamos enfim, tangentes à calma natural, cadentes a um frenesi pedante, agindo à imagem infante, errantes em pensamentos mutantes fazendo das antíteses contradições de nós mesmo...

13.01.2009 - Salar de Uyuni - BO

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terça-feira, 24 de março de 2009

imagem...

"A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
O segundo que antecede o beijo,
A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante em que desmoronou.

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se o seu mundo for o mundo inteiro
Sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro
Deixe tudo que não for passar.

Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
A um segundo, tudo estava em paz

Cuide bem do seu amor
Seja quem for..."
(Herbert Vianna)

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domingo, 5 de outubro de 2008

Metacriatividade

Na falta de um começo, começo pela escolha.
É assim na vida, é assim na arte, em qualquer coisa: um ponto. O ponto inicial independe, original; e por si origina o porvir impreciso - que, diferente da linha que se traça a tendência, do ponto abstrato se traça o infinito.

Ponto é incoerência, pois.

E daí, cá começo... num devaneio sem nexo,
Que de ponto oblíquo, vai-se a borrão abstrato
E, se vão dizer "é louco!" quando descerem o traço,
Vendo contexto em rima, sem ler parágrafo,
Eu digo: "obra-prima
É o bojo do desacato,
Um desatino no ato
Cientista que desafina."

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domingo, 15 de junho de 2008

poemeto

Embarga a voz,
Palpita o coração,
Calam os olhos,
As palmas,
As bocas...
E a alegria já se faz saudosa
Que veio a tristeza da partida,
E veio para ficar.

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Fossa Crítica

Eu vou assim meio aéreo,
meio perdido, meio a meio
num exercício forçoso que é conviver com essa idéia.

Eu vou vivendo em vão
ouvindo em todo lugar essa canção
e em todo lugar, o cheiro, e o gosto,
e o momento vago, que agora é vivido fora daqui.

Nesse quarto, nessa sala,
esse fardo selado, pesado, triste
talvez não pela perda
talvez não pela mentira
não sei... é tristeza
desnuda, crua, intensa
que aperta, que sufoca, que embaça.

E que me faz do corpo uma linha torta.
E eu vou torto, meio morto
passo a passo, flutuante, eu vou
vou sem chão, sem ar
vou fugaz, sem perdão
vou caindo sem saber onde chegar
embalado por um sentimento doloroso... sem nome.

A pele magra se torna opaca
os olhos, fundos,
as mãos, mortas,
morto... me sinto morto
me sinto preso dentro de mim mesmo,
desfragmentando os meus pensamentos,
despersonalizando as minhas pessoas,
não dá certo... nem assim.
logo eu mesmo me acho, me aperto e me mato.

E os únicos momentos sãos vão de auxílio ao torpor
dentre goles e tragadas, a tristeza se dissolve
e eu volto...

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terça-feira, 6 de maio de 2008

poemeto

ah mas eu quero a minha lei
eu quero o delírio de rei
desse corpo falso rebelde
desse falso corpo rebelde

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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Despedida

Ô viajante, já é hora de partir.
Pega teus sonhos, teus gostos, tuas histórias, e vai...
veste a mochila, desbravador contrariado.
Vai, além do horizonte, conhecer d'outros mares
que dessa baía de desamores já le foi privado o encanto.

Ô viajante, só lhe resta conformar,
e confortar na idéia do que é desconhecido,
que a vida é mais que um emaranhado de desassosego,
a vida é mais que esse chão mal resolvido.

Ô viajante, ajeita logo esses trapos,
vai-te embora, já é hora, volta à tua vida errante,
que, da beleza ofuscante dessa vista ultrapassada
só sobraram as pedras brutas que, assim estilhaçadas,
ferem.

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quarta-feira, 12 de março de 2008

poemeto

Dessa imagem vem um drama que me custa suportar.
A lembrança vem a tona, e meus olhos são teus olhos.
Que do amor a gente sabe quando ele já se faz ausente,
E, nesse repente, cai por terra todo esse desencanto.
Caem os gritos, caem os prantos,
Vem a inocência há tempos perdida...

É aí que nessa vida a dois, o amanhã vira um só.

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domingo, 2 de março de 2008

poemeto

Queria eu ter a certeza de que terei boa vida
Que terei meus filhos, meu emprego,
Terei minha velhice, meu apego.
Simplesmente a certeza de que tudo vai dar certo.

Queria eu,
Num momento, uma certeza,
Só uma, nada mais,
De que, mesmo sem emprego, velhice ou apego,
Ou mesmo sem juízo
Ou mesmo sem dó...

Talvez não tendo nem vez, talvez..

Espero que eu seja feliz, pelo menos.
Tomara que eu seja feliz...

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Gente

Se vê que essa gente não é tão ruim,
Que, se é gente, vai se dando assim,
Se doando meio sem razão.

Não, não há ninguém que siga sem querer
Um alguém pra gente aprender
Onde fica o coração.

Vai achar aquela que te faz feliz
E, quando achar, então você me diz
Que o amor é coisa séria sim...

Até o dia em que se busca
Culpa na desculpa muda,
Busca barro na calçada
E joga pra dentro de casa,
Que essa já vai descasar...

É... que essa gente não é boba assim,
Que, se é gente, vai jogando, sim,
E sai ganhando já pra não perder.

(ouçam no site da banda! www.palcomp3.com.br/bossacritica )

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

feijão sem arroz

Eu parti o meu medo em dois
um pr'agora, outro pra depois,
porque, sem medo, sabe com'é,
a gente não é mais que feijão sem arroz

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Feliz Ano Novo!

E é natal, ano novo, carnaval.
Estourem as champagnas! Gritem viva! É a hora.
Hora feliz, essa, de esquecer,
não de pensar,
só de ser...

E de, finalmente, viver...
uma vida transbordante
aos urros de alegria, cadente
aos corpos em frenesi, pingante
em lágrimas infantes
dos olhos urrantes,
dos pulsos em fogo!
escorrendo,
caindo,
quente,
leve,
doce.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

finalidade

Vá-se embora, ô medo,
Se me dói sonhar tão alto.
Me pode então ser feito
Algo direito.
Que se faça...

Eu não acredito em deus,
Eu não acredito em ninguém.
Fui-me ao vento a tempo de não mais acreditar
Em algo que me possa dizer um fim.

Eu não acredito em amor,
Eu só acredito em mim.
Pois corre o tempo de toda uma nova geração
Ao vento que sopra um fim à escravidão
Desse povo infeliz...
Oh! povo infeliz.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Passarim

Que o nosso chão cai,
e a gente sai
e vai por aí

que se encilha o vento e toca a fita

porque a vida recém começou, meu bem
e daqui a pouco já tá no fim...

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domingo, 11 de novembro de 2007

Aquela

A ela, ah! sim, eu faria uma música a ela.
Àquela, só ela, eu faria uma música a ela
Sobre o amor, sobre o amor...

Mas aquela já não é mais bela
Deixou de ser ela, aquela,
Deixou de ser.

Assim de repente não era mais ela
Deixou de ser música,
Deixou de ser.

(audível em http://www.palcomp3.com.br/bossacritica!)

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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Firença

Batuta o matuto um trejeito no jeito à gente a que vai se'xplicar
Matuta a cera de se ter por feito o leito onde se vai deitar
Carece, mal quisto, dum visto, dum ato, dum fato de se orgulhar
E chora por pena da cena de nao ser alegre quando deve estar...

E tenta matar a desgraça, matar na cachaça,
- ma non c'è l'ho qui!
Inventa uma cisma no peito, amor sem despeito
- no, non c'è l'ho qui...

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domingo, 23 de setembro de 2007

A Leveza x O Peso

Na inconstância da natureza, nada mais tolo que se ter por incerto o certo. Por convenção, disso o contrário sábio se torna, e isso é coisa bem pertinente. Que a gente já têm por incerto um tanto de certo e não vê quão lógico é pensar o contrário. O que eu quero passar é: primeiro, que o certo é incerto - e isso é verdade e boto fé -; segundo, que não há nada de errado - e muito pelo contrário - em pedir ao contrário uma resposta mais certa.

Exemplifico...

Na brandura acalorada daquele corpo, Ela se fazia soberana feito coisa nunca vista. Dominava-o por completo, impondo-lhe sua força leve. Se havia questão feita, a questão da questão se fazia resposta, e, não fosse o temor de convenção, se veria o certo pelo certo, e assim se quedaria por fim. No entanto, há de se ver que não se tem certeza tão certa assim, e por isso, meia e volta, a questão vem, e se vai, e se avira do avesso. Enfim... coisa bem cabida a um corpo dessa natureza. Mantinha-se o corpo... corpo de inefável beleza por tamanha flexão entre certeza/incerteza, resposta/questão - devido isso somente a Ela, força leve que o acometera.

Tão logo, de súbito, assim veio a fição (pois Ele não se tardou). O corpo pluralizou em dois, a vida singularizou em um vão. Afinal, não há de se ter leveza naquilo tão quisto pelo temor de convenção. E, como se viu que há de ser, da certeza fez-se incerteza, e do avesso avirou-se a questão. Já não havia tamanho equilíbrio a flexionar coisa a outra, tamanha leveza a questionar a própria questão - Ele, por fim, se fez presente nessa história, pesando seu fardo da incoerência e recriando os traços da inconveniência.

A história é resumida, sem os detalhes descabidos, mas tem pelo certo o fim incerto que está ainda a desenhar.
A história é verídica. A história se repete. A história é um eterno retorno.
Avesso ao avesso, talvez seja um problema sem resposta.
Que talvez à resposta só reste a questão dessa própria questão.

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sábado, 8 de setembro de 2007

Judiaria

Todo homem é escravo de uma mulher
Ah! Fardo tão cruel esse amor infiel
E essa dor-desilusão de ver a sorrir a outro afeição
Daquela, da minha senhora, minha mulher.

E, logo que me ajeito, lá vem outra a me tentar.
E vem com aquele jeito que elas sabem bem usar.
E agora, Deus, desse coração partido fez-se outro amor perdido
Porque elas só me sabem judiar, só judiam de mim
só me sabem judiar, só judiam de mim...

audição disponível na seção MÚSICAS!
Créditos da execução atribuídos integralmente à banda Bossa Crítica.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sobr'insentido em desficuidadecer...

Tem,
tem, por certo,
tem maior encanto qu'essa não capacidade
de se tomar por desconhecido o que que há d'especial
em se ver, afinal, perdido, e aperceber-se(r) tão banal
acontecer... sem acontecer.

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